• "Eis o meu desejo: bordar tecidos finos com fios de devaneio."
  • Pérolas inúteis

    Por Jéssica Fontenele, às 21:17

    Perceba, perceba que ela agora contempla, no espelho da parede de um quarto maior que o mundo inteiro, suas pérolas inúteis. Outrora dona de sua voz e dos passos que a conduziam sempre ao próprio ego, hoje ela pode chorar sangue se tiver de enfrentar sozinha a imensa mesa da sala de jantar. Os melhores livros não a satisfazem, têm agora o gosto amargo de sombras de vidas impossíveis; os sonhos já não lhe bastam, antes a torturam; e a coroa que permaneceria para sempre ao redor de seus cabelos jaz agora entre mãos alheias – as suas mãos. Você, a terrível ameaça para todo o império. Ela sabe que suas esquadras estão desprotegidas, que toda a sua guarda pode cair por terra com apenas um miserável e desajeitado voltear de espada no ar, e que seus infantis murmúrios de súplica fazem-na surda ao brado de todo um povo. Outrora rainha de aço, ouro e diamantes; hoje uma criança frágil que você pode quebrar como cristal de espessura mínima e espedaçar pelo chão com o golpe mais tolo de que já teve notícia.

    Quando eu entrar em tua casa...

    Por Jéssica Fontenele, às 22:22

    Quando eu entrar em tua casa,
    Deita a boca em silêncio
    E respira sem preocupações.
    Deixa que meus dedos finos
    Perfumem-te os cabelos
    Com o perfume das páginas
    Dos velhos livros que percorri
    Toda noite, em teu nome.
    Escuta-me, então, através dele:
    Não direi uma palavra.
    Se julgares, por fim,
    Que realmente não te sirvo...
    Irei embora certa, bem certa
    De que não tens metade da alma
    Que julguei que tivesses.

    Soneto do triste fim

    Por Jéssica Fontenele, às 22:54

    Tens nos olhos um brilho de loucura,
    E um brilho de loucura, nos olhos, tenho.
    Na noite escura, aos prantos, me detenho;
    E aos prantos te deténs na noite escura.

    Guardas na alma mil delírios tresloucados,
    E mil delírios tresloucados na alma guardo.
    Tua aura de sonho vestiu-me de brocados,
    E de brocados e paixões fez-se o meu fardo.

    Entretanto; teu olhar, minha primavera,
    Só acha gelo nas flores que trago em mim,
    E vãos são os versos que a minha boca diz...

    Então, da mais alta torre da quimera,
    Aplaudo, sorrindo, o teu final feliz:
    Ventura derradeira do meu triste fim.

    Remoto pedaço de delírio

    Por Jéssica Fontenele, às 21:02

    Não se assuste, meu bem, se por acaso, em uma noite dessas, eu bater à tua porta com os bolsos cheios de estrelas, querendo te comprar. Eu viajo por milhas sem fim até o mais remoto pedaço de delírio. Não há como fugir. Todas as manhãs, acordas com meu sopro tênue de ventura. Enquanto andas pela rua, meus suspiros de imaginação percorrem a cidade, respiro cada passo, espio o teu sorriso debruçada nas janelas dos arranha-céus. Toda vez que teus lábios apertam uma fruta doce, beijas-me em segredo num fôlego de ternura. Murmuro versos nas águas do mar onde tua pele se perfuma de sal. Quando sentas ao piano, roubo-te o coração das mãos de Beethoven. Quando abraças um sonho, é a mim que abraças. A brisa vespertina que se abriga em teus cabelos sou eu, meu bem: é fácil ver, basta virar a alma para o outro lado. Tens em redor do travesseiro a música lilás que meus olhos compuseram para ti. E numa noite dessas, vou viajar com os bolsos cheios de estrelas por milhas sem fim... E bater à tua porta.

    Buquê de arrependimento

    Por Jéssica Fontenele, às 13:34

    Quando você me vier com seu buquê de arrependimento e esses olhos que nunca despem as cortinas de gelo, devo dizer que chegará tarde. Direi que, apesar de tudo, minhas faces de fogo se inflamavam na tua névoa gélida, e que quando o observava em silêncio, minhas lágrimas beijavam os teus cílios. Direi que percebi: você me julgou pelos meus sapatos de boneca, e julgou muito, muito mal. Não me peça para calar a boca nem se preocupe com os seus olhos, eles não vão derreter agora, se é que derreterão algum dia. Sou humana, sou menina e gosto de sonhar com o que não posso ter, talvez seja esse mesmo o meu desgraçado jeito de ser feliz. Pode ir saindo; olha o céu, pesado de culpa; vai chover e você vai se molhar, a minha visão não te protege mais. É uma pena, querido, mas sinto que quando você me vier lindo e frágil, ingenuamente preso nessa pele auto-suficiente, direi que foi muita gentileza sua, mas nunca gostei muito de flores de arrependimento, especialmente porque sempre vêm já murchas, quebradas, desalentadas, mortas. Não sobrevivem nem em água fresca, quem dirá em um olhar gelado.

    Confissão de uma ex-sonhadora

    Por Jéssica Fontenele, às 16:18

    Eu ainda lembro, lembro que era bem pequena e subia na árvore, fechava os olhos e ficava sonhando e sonhando. Sempre vinha algum adulto e gritava: “Pára de sonhar, menina, vai fazer alguma coisa”, e eu continuava sonhando. Que gosto tinham as coisas se eu não sonhasse tudo antes de tudo acontecer? Por isso, eu sonhei com força o gosto dos suspiros de vovó antes de colocá-los na boca; com força sonhei a boca de Frederico antes de suspirar com ela; sonhei que o mar me engolia antes de mergulhar. Gritavam: “Pára de sonhar, menina, pára de sonhar”, e eu continuava sonhando, continuava sonhando! Ah, se eu ainda soubesse... Sonhar primeiro, para cobrir as expectativas de fios de ouro e para que a vitória ou a derrota me venha banhada em esplendor. Sonhar primeiro, viver depois.